7.8.17

Fragmento cotidiano

Pra onde vai o que nunca foi? – pensava entre um gole e outro. Tentou juntar os pedaços, fragmentados, e não conseguiu uma peça sequer. O vazio tomou conta de suas veias, quase esvaziando o sentido da vida. Piscou lentamente, respirou.

“Queria tanto aprender a leveza”, lembrou enquanto recuperava o sentido.

Sentidos esvaídos voltaram com peso. Aquela sensação de estar inacabada. Questionava seu rumo. Procurava respostas em diários esquecidos. Revirava o quarto, as lembranças, a memória. Num instante de lágrima, desvaneceu nos devaneios adormecidos.

Acorda! – interrompeu o relógio.


Guardou os pensamentos e fez o café. Sem tempo para um suspiro. Mais um fragmento para a coleção.

16.6.16

mea-culpa

Peço minhas mais sinceras desculpas. Desculpa pela intolerância, pelo preconceito, pela segregação. Desculpa por nossa sociedade não ter evoluído, por achar que somos diferentes e por não aceitar as diferenças. Desculpa por rir de piadas que passam do tom e humilham vocês e por compará-los com “animaizinhos”, por estereotipá-los. Desculpa por ser covarde, por não lutar por vocês, por não combater o preconceito todos os dias, como deveria ser.

Hoje só sinto vergonha. Vergonha por fazer parte de uma sociedade que tolera e propaga a violência contra vocês. Vergonha por viver em um mundo onde o discurso de ódio impera, a religião legitima mortes e vocês precisam se esconder. Tenho vergonha de ser classificada como “heterossexual” e receber alguma vantagem por isso (assim como recebo por ser branca, ou de classe média), vergonha de conhecer pessoas que se orgulham por ser hétero e de me enquadrar em grupos com essa mesma ideologia.

Ontem foram 50 em Orlando, mas quantos não foram hoje? Quantos não são agredidos por dia, por hora? Fisicamente, verbalmente, implicitamente, nas brincadeiras, nas rodas de conversa, nos almoços de família, nas redes sociais.

O mundo errou e continua errando. Errou em não ensinar nossos filhos que pessoas são pessoas e é nosso dever respeitá-las independentemente de cor, credo, orientação sexual, etnia, posição política, classe social e até time de futebol. Errou em permitir que o preconceito nasça, cresça, se propague e nunca morra. Errou em aceitar a violência, a intolerância, a morte. Errou em ficar indiferente às injustiças e impor um único modo de amar. Errou em reforçar o padrão “cristão-branco-heteronormativo-patriarcal”. Errou e continua errando porque é feito, também, de pessoas fracas e covardes!

Somos culpados em omitir, ignorar, relevar, negligenciar e nos calar.

Peço, por favor, que vocês não se sintam mal pelo que são. Não se sintam culpados por serem levados a duvidar do que são. Não se sintam “diferentes”. Por favor, não se matem! O erro é da sociedade, não de vocês.

E eu sei que essas desculpas não valem muito. Eu nem sei se as aceitaria se fossem para mim. Provavelmente eu reagiria com violência e revolta; mas vocês, muito sabiamente, respondem com amor, com respeito, com tolerância. Isso é ainda mais nobre, porque demonstra o quão evoluídos vocês são e o quanto todos nós precisamos uns dos outros para aprender a conviver com as diferenças.


Se pudesse, eu mudaria o mundo para vocês.



4.2.14

sem verso

Jane Birkin e Serge Ginsburg

meio-verso
verso e meio
meia palavra
poema inteiro

15.1.13

Enquanto isso, na academia

O abuso de autoridade por meio da linguagem rola solto.
Mesmo para aqueles que possuem pleno domínio da norma-padrão da linguagem, conhecem as várias ferramentas do gênero argumentativo e adquiriram, ao longo da vida acadêmica, o mais amplo dos vocabulários, que permite fazer escolhas lexicais rebuscadas, parece evidente e lógico que "o simples deve ser dito de maneira simples".
Rebuscar a linguagem é perigoso porque, além de atrapalhar a transmissão do conteúdo da mensagem, pode soar preconceituoso e até abusivo, uma vez que "afirmar poder" não é um objetivo do texto acadêmico. Explicar o complexo de modo simples e objetivo é uma tarefa muito mais valiosa do que demonstrar o conhecimento da linguagem ou da técnica, afinal, o objetivo do texto acadêmico - e de qualquer outro - é persuadir o leitor, e isso só será possível se a linguagem for acessível a ele.
Salvem, apenas, os encantos gramaticais-literários, aqueles bonitinhos e dotados de leveza.
Obrigada, Cláudia Perrota.

1.8.12

Vivendo e aprendendo a... editar


Certa vez, escrevi:
“Um dos principais objetivos da publicidade é estimular o consumismo para que o regime capitalista seja alimentado pelos consumidores, gerando lucro para a empresa a qual representam e, muitas vezes, colaborando para o crescimento econômico do Estado. Os recursos utilizados pela publicidade são equivalentes aos dos meios de comunicação em massa e usam, como tema, os objetos do consumo que desejam promover.”

E hoje editei meu próprio texto:
“Os recursos utilizados pela publicidade são equivalentes aos dos meios de comunicação em massa e usam, como tema, os objetos do consumo que desejam promover”.

Guardei minhas opiniões na gaveta, mas não tranquei com chave. Fiz o mesmo com sonhos, conquistas, relacionamentos. Alguns estão expostos na parede ou estampados no mural. Outros, engavetados. Já me disseram que isso é amadurecer, mas eu acho que isso é não fazer doer o que nunca vai amadurecer.

16.2.12

mais

Quisera ser gota
única e derradeira
última e primeira.

Pudera ser gota
apenas.

2.10.11

Alguns... um

Foram alguns alunos, mas eram tantas as histórias. Cada um com a sua própria "bagagem", suas múltiplas facetas e particularidades. Eu os lembro um por um. Lembro os erros que transformamos em piadas, as brincadeiras que despertavam nossa infância, as músicas que cantamos, as encenações que traziam à tona o nosso eu-ator. Cada um era um personagem diferente à cada aula. Inclusive eu... Eu aprendia tanto que nem achava justo ocupar a posição de "professor": eles sempre tinham algo a me ensinar.
Até que um dia eu recebi um postal inusitado: "Je réalise mon rêve dans une Paris insolite parce que tu m'a enseigné plus que la langue française. Merci PROFESSEUR". Et donc, je me suis dit: acho que sou um pouquinho professora também!

19.5.11

Antes de partir...

Afinal, o que realmente importa?

Já dizia Ricardo Reis que a morte é a única certeza na vida. Então, que tal reparar na lua, apesar do frio? Ou alimentar a nossa alma com a mesma vontade que alimentamos nosso corpo num banquete de domingo? Porque é preciso entender que o sucesso é uma sucessão de momentos felizes, e nada mais. Porque é preciso ter um plano, saber aonde se quer chegar, escolher o que vale a pena. Há muitas portas na vida, umas se fecham, outras se abrem, mas a senha é sempre a mesma: responder "sim".

O que eu guardaria em uma caixinha de preciosidades? "Vou levar pra sempre comigo lembranças, bons momentos e a minha família. O sorriso dos meus pais, leveza e bons amigos". Memórias, o cheiro da infância, o amor, a arte. Guardaria, também, aquele cordão umbilical que jamais se rompe, o fio que une as pessoas e nos preenche o vazio com a sensação de não estarmos sozinhos. E não estamos. Nada é por acaso.

Se hoje fosse o meu último dia na Terra? Eu viveria, viva, pois viver é URGENTE. E foi assim que me senti ao mergulhar na delicadeza, na sensibilidade, na sutileza, na profunda leveza do espetáculo "Antes de partir".

Instituco Capobianco - Teatro da Memória
Antes de Partir
Direção: Léa Dant
Texto e interpretação: Alejandra Sampaio, Patrícia Gordo e outros
Duração: 120 minutos
Ingresso: R$ 10.
Terça e quarta: 21h