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Eu, lua

Mais uma despedida dolorosa. Ele, no ônibus: E dessa vez ela nem estava tão cheia como nos verdadeiros romances, mas mesmo assim tirou-me o sono e me fez acompanhá-la por toda a noite, que não era clara e sim cheia de nuvens, o que a deixava invisível por algum tempo, mas um mero feixe de luz que aparecesse alimentava uma enorme esperança dentro de mim e me dava forças para esperá-la. Mesmo que tivesse de ver o sol por dois meses, eu sabia que de algum jeito ela voltaria, minguante, cheia, mas me assustava o fato de existir a possibilidade do seu retorno como “nova”, não me deixando vê-la novamente, e seu possível desaparecimento acabaria com meu céu. Então ela finalmente voltou, dessa vez com um algo a mais, e eu sentia que essa noite de lua cheia poderia durar pra sempre, mesmo em tempos nublados. Essa lua desperta meus melhores sonhos e minhas melhores qualidades, me faz ser cauteloso e pensativo, é com ela que eu cresço e me fortaleço e agora eu sei que aqui, em Paris ou em qualq...

Sobre os escritos no meio do caminho

Gosto de pessoas que escrevem bem porque, para atingirem tamanha proeza significa que, além de terem passado por experiências marcantes (que mudam a própria vida e podem, também, mudar a do outro), elas leem. E leem muito. E eu gosto de pessoas que leem porque elas são perigosas. O perigo está na desconstrução de limites, quando a imaginação torna-se um ideal mais paupável que uma ideologia qualquer. E essas pessoas, ah, como eu me identifico com elas! Vivem tudo o que podem viver, mas quando não conseguem atingir tamanha intensidade, elas simplesmente imaginam um texto, um texto da vida. Então basta escrevê-lo para continuar vivendo e, mais do que isso, compartilhar um pedaço de suas vidas com os outros muitos curiosos que têm sede de mundo.

Apenas um fim

Escovou os dentes como nunca escovara antes. Olhava atentamente, talvez pela primeira vez, para a única parte óssea externa em seu corpo. Fazia força, comprimia a escova como se quisesse desgastar as cerdas todas por completo. Seria a última vez que escovaria os dentes ali, olhando-se naquele espelho. O que ela tanto sonhara em ter – e teve – seria, agora, parte do passado. Um passado que ela deixaria fisicamente para trás – não havia escolha – mas que nunca deixaria de fazer parte dela. Queria ter a satisfatória sensação de ter vivido tudo o que lhe coube, intensamente, condensada naquele último instante em que aprendera a escovar os dentes, e só. Havia apenas uma última pitada de pasta, então pressionou o tubo com toda a força que podia juntar entre as pontas dos dedos para gastar aquele restinho de pasta de dente que hesitava em sair. E hesitava porque, depois de gasta, se nada sobrasse, viraria lixo, seria descartada, junto com a escova de cerdas gastas, e não poderia mais...

Da minha vontade de desbravar o Leste Europeu

Terei eu nascido para me tornar uma carpideira? Quero cantar os festins Os bosques alegres nos quais nos introduzia Shakespeare Deixai Aos poetas um instante de alegria Senão vosso mundo perecerá (Czeslaw Milosz, poeta e ensaísta polonês)

Chez Polaert

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O caminho para a saudade.

Um parêntese no suicídio

Urashima Taro era um pobre pescador que um dia salvou uma tartaruga. Essa, como prêmio, levou-o para morar em um reino nas profundezas do mar. Lá ficou o pescador, por um certo tempo. Embora feliz no luxuoso reino, sentiu saudade de sua terra natal, de seus amigos, de sua vidinha de pescador: encontrou-se deslocado, numa condição de anomia . Foi então que Uroshima Taro pediu para voltar. Ao partir, recebeu uma arca de presente, com a recomendação de não abri-la durante o trajeto. Quando chegou à sua cidade, não a reconheceu e descobriu que há muitos anos havia desaparecido um pescador chamado Urashima Taro. Depois dessa descoberta, foi para a beira do mar e, já que ele não tinha mais nada, resolveu abrir a arca. Ao fazê-lo, uma fumaça saiu e ele envelheceu rapidamente.

Arte, amor?

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                                     Chagall no MASP Perguntaram ao Chagall o que era mais importante na vida: — O amor. Quando se tem uma mulher para amar, não é preciso mais nada.